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MOONWALK: Overdoses de Download e Transe Virtual

Meu ensaio sobre a obra Moonwalk (7ª Bienal do Mercosul – 2009), do artista tcheco Martin Kohout, publicado na revista Panorama Crítico nº5, Ed.Abril/Maio 2010. Transcrevo abaixo:

E, assim, aguardamos o vídeo no site Youtube baixar por completo, para não termos o desgosto de ver o filme travar no meio do caminho. O assunto pode ser abrangente: alguma celebridade passando vexame, um erro de gravação, um tombo feio, uma avalanche que perdemos no noticiário, bebês dando risadinha, um trailer de um novo filme, o lançamento de um clipe musical – nem que seja de apelo trash. Não interessa! Tão logo recebemos o link daquele amigo em quem confiamos, já vamos clicando, com a convicção de assistir a algo que nos trará entretenimento. E haja página aberta carregando!

É dessa mania cada vez mais propagada pela rede mundial de computadores que vem a ideia do trabalho do artista tcheco Martin Kohout (1984), chamado Moonwalk. Trata-se de uma vídeo-instalação de 2’21’’, que esteve em exibição no Santander Cultural, integrando a mostra Projetáveis, da 7ª Bienal do Mercosul (2009), em Porto Alegre.

A obra consiste na projeção de um vídeo na parede, nivelado com o piso, que apresenta uma tela vazia, escura, com a barra de ferramentas padrão do Youtube na base e sua marcação de tempo transcorrido. Mas, segundos depois que ela inicia, outra surge acima dela, de menor tamanho e menor duração. Acima desta, mais uma, também menor, e assim sucessiva e lentamente, formando uma grande pirâmide. Uma barra transmitindo a imagem das anteriores, referindo-se sempre a si mesma, numa seqüência infinita, mas ao mesmo tempo com sua duração específica de 2’21’’. Apoiada no chão, defronte à tela, encontra-se uma grande chapa de vidro negro, que reflete essa imagem, criando uma pirâmide espelhada e aumentando, com isso, nossa sensação de profundidade. O ambiente é ainda marcado pela presença de uma trilha sonora com atmosfera mística, etérea, uniforme, que acompanha o desenvolvimento do vídeo.

A mostra Projetáveis teve como objetivo a exibição de obras que pudessem ser enviadas pela internet de qualquer parte do mundo, para depois ganharem a forma física em espaços reais, transcendendo os limites físicos e temporais. Foi através de uma convocatória aberta internacionalmente que o curador-adjunto da mostra, o argentino Roberto Jacoby (1944), também egresso de experiências em redes virtuais, descobriu e escolheu, junto com outros curadores, o jovem Kohout, cujo trabalho foi um dos que mais se destacou.

Kohout atualmente vive em Berlim, na Alemanha, e seus trabalhos giram em torno de aspectos da linguagem virtual do mundo contemporâneo. Utiliza-se de web arte, vídeos, filmes, animações. Trabalha também na área da publicidade, produzindo comerciais para TV, de humor bastante presente. Humor esse que aparece inclusive no seu próprio site (http://www.martinkohout.com), que se mantém “fechado” no período noturno. Outro trabalho seu, de 2008, também tem como tema a barra de sites de vídeo. Nesse caso, o círculo marcador de tempo permanece imóvel no centro da tela em branco, e o que se movimenta é a própria barra de tempo decorrido, num movimento de vai-e-vem suave, como um relógio de pêndulo (http://www.martinkohout.com/ex/untitled-000.html).

A obra Moonwalk surgiu inicialmente como um trabalho de web arte, feito especificamente para a internet. Foi disponibilizado no próprio site do Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=0DVN4m41QCE) e teve expressivo retorno dos internautas, que deixaram registradas suas impressões. Algumas denotam a indignação dos observadores, tentando entender a lógica de ficar esperando por algo que “não acontece”; outras impressões trazem um caráter dúbio – uma pessoa registrou que o vídeo “era divertido de uma maneira chata” –, enquanto há as que demonstram prazer pela captação da ideia.

E que ideia seria esta? A própria noção de tempo e o seu mau uso, numa sociedade cada vez mais rodeada de acúmulo de informações, na qual recebemos uma overdose de conteúdo que não conseguimos fixar em nossas mentes, conteúdo muitas vezes fútil, fugaz, permeado de frivolidades. Como sabemos, o mundo anda em velocidade cada vez maior: o que era um mês para nossos pais, hoje, para nós, é um dia; as horas se tornam minutos, e os minutos, segundos. E, nessa velocidade, o fato de algo atrasar nos incomoda profundamente. Como, por exemplo, quando o computador trava e ficamos incapazes de resolver o problema. Nós saímos daquele transe em que nos encontramos, viajando junto com os bits e bytes da rede, e voltamos ao mundo presente, real e tangível. Nesse momento, nossa alma deixa de fazer parte desse coletivo virtual e se volta ao nosso subjetivo, ao nosso individual.

A obra de Kohout trabalha essa ansiedade, a angústia de querer – e não poder – clicar mais adiante na barra de marcação do tempo para ver se algo acontece. Ele se utiliza da linguagem do próprio Youtube como ferramenta para criar seu trabalho, assim como os artistas da Renascença utilizavam pincéis para produzir suas obras. Através de sucessivos uploads e capturas de imagem, a pirâmide vai sendo edificada. “Uma escada para o céu”, como colocado em um comentário no site. A iluminação da projeção e a música de fundo corroboram para a atmosfera introspectiva, de meditação. Sentimo-nos intimidados e nos comportamos como se estivéssemos presenciando um ritual quase sagrado. Na primeira vez que assistimos à vídeo-instalação, temos a impressão de que os 2’21’’ são eternos, indo na contramão da nossa vida agitada.

À medida que chegamos ao topo da pirâmide, a imagem – em razão da definição cada vez menor de vídeo – vai se perdendo, ficando borrada, como se nossa memória acompanhasse apenas o que está mais próximo dos olhos, lentamente esquecendo do que anteriormente fora visto.

Outra forma interessante de pensar a obra é no que tange à composição da imagem não como uma pirâmide, mas como um ponto de fuga, em que o que está em perspectiva seria o próprio tempo. A cada nova linha que surge, o tempo de duração diminui progressivamente, numa fração da linha anterior. Assim, concluímos que o vídeo alcança o infinito, com frações eternas de vídeos, cada vez menores, até sumir de vista. O paradoxo a que podemos chegar, então, é de como pode o vídeo ter duração específica de 2’21’’? Será que, em determinado momento, o infinito volta a ser finito?

Graduando do curso de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS. Autor da intervenção 7 em Quarentena.www.alexandredenadal.com.br.

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